do fim ou não, parte um
coelhinho da páscoa, que trazes pra mim?
Mandato
Eu funciono bem com ordens e tem gente que sabe disso. E compreende o momento certo de um mandado exato com destino marcado. Tem gente que apreende o papel passado, desamassa o rolo e assina, mesmo que a duras penas, um termo fiel de compromisso organizado, bagunçando mais que mil coretos, mas amarrando tudo ainda assim. Aproveitando horas de almoço para passeios na catedral. Tem gente que prende o ar amarrotado na roupa muito preta, de laços frouxos pra disfarçar o andar atento em meio às multidões e falas poucas daquelas salas plenárias de cadeiras várias, mas quase todas quietas.
Eu queria a lentidão das jabotas que não se preocupam aonde ir, porque o casco ainda está endurecendo. Eu ia gostar de ser uma e não tantas, tendo todas as quatro patas ao chão que bem me conviesse. Posso escolher uma terra para morar? Passo um, passo dois, atrás, à frente, dançando no salão de todos com cada hora um. Tum e tum no bolero dos olhos desencontrados, tão sem jeito as quatro patas de pé, erguidas do chão.
Significativamente burocrático o dia da não-jabota que sempre precisa aonde ir e a que horas, que dia come alface e que dia come mamão, às vezes carne, cuidando para que a alta do ácido não termine em gota, pim, pim, pim, pingando todos os is e borrifando os que têm acento. Ponto e vírgula, travessando anos de trabalho duro e carteiras assinadas, a não-jabota pedala seu mundo bípede e expresso, e sim, em muitas cadeiras vazias, explicitamente lupiciniana, divide-se entre todos os cotovelos do mundo e o seu próprio.
A não-jabota admira grande a oratória, e, como de todos por quem nutre puro amor, mantém fantasiosa distância, não puxando uma de suas disponíveis cadeiras em suas pequenas salas no centro da sua cidade. A não-jabota esmera-se em fingir que não sabe da recíproca consideração da oratória por seus passos rápidos em chãos de ninguém, assim não precisa nem pensar em procurar seu objeto de desejo. Mas ela diz que um dia haverá convite sem chance de confirmação. E depois de alguns encontros, a não-jabota desenha em esferográficas, como que falando ao telefone, que será capaz de discursar brilhantemente em colares de pérola e anéis de valor discreto, mas todos azuis.
É nessa pintura que a não-jabota andará a danças lentas, de par perfeito, multiplicando pequenas muitas quatro outras patas que, depois de algum tempo no chão, gostarão de andar de pé por todos outros quatro cantos, mamando mundos e amando mães. Aí então a não-jabota desejará sua própria lentidão e colorirá todas as suas cadeiras riscadas em sua terra escolhida para viver e amar, a desejosos discursos de brinco. E, perfumada, será reeleita por maioria absoluta dos votos, cumprindo assim o mandato engarrafado por todos os mares de onde nasceu.
abril/2006

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