incompreensível
por onde anda você, minha nêga?
Noiva
As luzes no palco são poucas, mas como é firme a limpeza dos traços sem poeira no chão. O solo quente, úmido, forte. Sapateia, mulata. As árvores são muitas, os troncos grandes e gordos, as folhas verdes que deságuam na varanda. A floresta inteira de algas que nascem na terra e renascem no mar.
A consciência é enorme, mulata. A lucidez que arrebata. Essa limpeza de sons que embalam mil lágrimas, milagre, mais. É a minha ideologia, mulata. Essa senhora, minha árvore de troncos sorrateiros. A minha construção de pedidos atendidos. Você é a minha santa, mulata. A minha padroeira das noites de mantos sem veludo. As tuas roupas são leves, mulata. E voam como o vento, sentem a brisa e choram – os cristais por sobre todo o rosto muito negro, a boca em fartas gramaturas de carne fresca, túrgida e vermelha. Tua pele retinta. Você é a minha clareza, mulata.
Dança, dança ao som dos corais, silencia as tuas ondas na minha cabeça, nessa torta morada que eu escolhi pra você. Essa minha burguesia dos pés descalços. Eu, que como na esteira, que durmo na esteira, que rezo na esteira. Eu, que temo a paz como temo o vento e as roupas e as danças e o próprio temor. Eu, que não como carneiros. Eu sou tua, mulata. Em pulseiras, cores, miçangas, flores, odores e águas. Em janelas, saias, escadas e noites escuras de sol se pondo. Em vermelhidões ardentes e negros profundos na prata do luar. Eu sou tua em todos os movimentos do mundo. Em todos os sentimentos de vida. Você é a minha natureza, mulata. Você é a minha mulher e eu aceito não te compreender para sempre. Eu aceito.
Beijamo-nos, pois.
outubro/2005

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