filha única
pontodoc.
Desejo
sendo quase uma incerteza quando digo quero. É que meu corpo não está assim acostumado a certas urgências, muito menos a satisfazê-las e muito menos ainda a que a satisfação seja de fato perceptível às terminações nervosas das minhas unhas. Sim, chá com metáforas. Depois de uma conversa sem risos, abraçada por um bolero em finíssimo tricoline cor de jambo, emoldurada pela saia branca com três palas lisas, depois de uma conversa sem risos e cheia de trejeitos, as mãos malfeitas por descuido, o corpo borrado pelo uso, depois de uma conversa cheia de trejeitos eu escolho o movimento automático dos lábios dançantes.
Mesmo que não seja diferente, esse o em caixa alta. O diferente – uma personalidade do meu desejo adiado de arriscar. Esse texto assim mais aberto, com menos água e mais mato, mais espada, metal afiado, ferro, fogo, ferro, fogo, forja. Esse texto assim mais aberto não é desejo, é a minha necessidade de excomungar a caixa alta e optar pelo a mais uma vez. Só mais essa, mãe, mais cinco minutinhos e eu prometo que largo essa vida nociva de amor. Sim, eu sei que já mamei demais.
Nesse entremeio, que venham as toalhinhas. Mastigo tudo, engatinho, aprendo a andar, ainda que tarde, me segurando no parapeito da janela como fazia da primeira vez em que não tive cabelos. Justamente como vejo nas fotos avermelhadas daquele tempo – a avó ainda ereta, sozinha, jogando panelas e cozinhando culpas, os seios de cachos longos e negros, recém-chegados do mato em calças de pano mole e blusas pálidas de viscose.
Que venham as toalhinhas. Mastigo e não engulo – cuspo tudo na areia e de onda em onda construo enormes castelos molhados de sal. Esta é mesmo a janela daquele meu olhar. A caixa alta, os pés no chão e a vida inteira à beira-mar.
agosto/2005

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