minha nêga não sabe o que eu sei

e olha que ela é bamba. ela gosta de samba, de maçã e de homens que entendam deus. ela tem duas tatuagens e gosta de sexo. ela mora no mar, mas não brinca na areia. ela tem medo de gente. ela tem vontade de gente. ela gosta de música. ela brinca com a aritmética do livro dos prazeres. a nêga cospe fogo, mas está em extinção. ela é minha e ela também sou eu.

mardi, juin 14, 2005

não

Senhora da rocha

Tu não estás como Vitória à proa
Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura

Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco

O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
É por isso que tu estás em prece até o fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo

Tu sabes que para nós existe sempre
O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no mar
Homens e barcos pressentem o naufrágio

E por isso não caminhas cá fora com o vento
No grande espaço liso da luz branca
Nem habitas no centro da exaltação marinha
O antigo círculo dos deuses deslumbrados

Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento
Inclinas o teu rosto

Imóvel muda atenta como antena


[Sophia de Mello Breyner Andresen]

posted by sua nêga