gêmeas
somos três.
Esfinge
Havia girassóis na porta quando você veio. Amarelos, gordos, alheios, estampados lá na porta, guardando a entrada e a saída de tudo. Havia uma mesa, a sua mesa, de quina para a água, na frente das flores, integrando o branco das manhãs e os silêncios obrigatórios dos meios de tarde. Havias poucas pessoas quando você veio.
E me era um mistério com todas as possibilidades de mistério que um nariz fino e reto e nobre pode trazer. Que os olhos mareados podem chorar, a qualquer palavra mais doce ou amarga, a qualquer palavra, porque a palavra é em si o mistério de todos os mistérios de tantas possibilidades. E como há possibilidades.
Decifres e martelos e leões sem cauda não devorariam jamais todas as retas que se bifurcam em tantos caminhos e tantos lados para todas as coisas, tantos papéis que me servem em tantos lápis coloridos que pintam luzes de noite e apagam escuros de dia. Que me bebem água ao pôr-do-sol. Que me fazem crescer a cada café e cada questão, cabeceando teimosa, criança e sensata a todo ensaio das minhas decisões.
Você também acha que palavras finais não existem, não é? Porque tudo pode ser bom e tudo pode ser ruim, tudo pode ser o sal e tudo pode ser o vento, cada coisa tem o seu papel e todo lado tem o seu mistério, a tua dualidade e as tuas múltiplas funções.
Você tem pérolas na cabeça e está no fundo do mar, lá onde eu guardo os meus mais preciosos cantos, onde estão as melhores roupas e as danças mais bonitas de toda a roda. Lá onde tudo é muito porque a dona é um e a água é infinita. No fundo do mar, onde cada peixe e cada concha e cada coral tem um pente e uma jóia, onde cada filho é um amor e uma lua, e onde todos os amores são o enigma indecifrável das ondas que nos devoram em interrogações.
maio/2005

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